Admitir a própria incerteza, a própria vulnerabilidade diante de juízos, a ignorância e a dúvida são costumes pouco recorrentes. Utilizar-se de hipóteses e suposições ao invés de certezas, trabalhar com a maleabilidade de informações, parecem ser atitudes que demonstram fraqueza intelectual, moral e, até mesmo, profissional.
Muitas profissões, aliás, descendem daquela primeira arte retórica de manipular informações conforme convém: a sofística. “Sofista” era, nos tempos da Grécia Clássica, aquela pessoa que sabia discursar de maneira persuasiva, convencendo quem fosse do que quisesse. O nome “sofista”, inclusive, significa “possuidor de conhecimento”. Até que, para desestruturar esta ideia precipitada sobre o conhecimento, ainda na Grécia Clássica, um homem chamado Sócrates resolveu abrir bem os olhos para todo aquele “conhecimento” sofístico e, com singular humildade, admitir que ele, por sua vez, só sabia que nada sabia.
Sócrates, então, deu espaço a um novo tipo de “profissional do conhecimento”. Substituiu o “possuidor” do conhecimento pelo “amante do conhecimento”, isto é, o filósofo. Antes de afirmar algo, o filósofo - aquele que quer se aproximar da verdadeira sabedoria - analisa cuidadosamente qualquer afirmação. Sem outro tipo de interesse, apenas o amor pela verdade, o filósofo tenta olhar para ela como jamais foi olhada: afastando dela todas as outras “verdades” (no plural sofístico) que convencionalmente se prostraram em sua frente.
É um pouco como a velha fábula de Andersen. Um falso tecelão apresenta-se para o imperador prometendo-lhe um tecido tão especial que apenas os sábios podem enxergar; os tolos, os incapazes intelectualmente não podem vê-lo. Encantado com a promessa de poder conhecer as pessoas “sábias” do seu reino apenas distinguindo quais são capazes de ver o tecido, o imperador pede que o tecelão faça-lhe uma roupa. Quando esta é a ele entregue, o imperador, embaraçado, enche-a de elogios. O problema, porém, é que o próprio imperador não consegue vê-la. Com vergonha de admitir que era, ele mesmo, um “tolo”, nos dias que se sucederam, o imperador, imaginando que endossasse a roupa mas, na verdade, completamente nu, passeou pelo reino observando quem era dotado da capacidade de enxergá-la. Os habitantes da cidade, também envergonhados por sua ignorância, fingiram todos poder ver as roupas novas do imperador, mesmo que, de fato, ele não vestisse nada. Até que, um dia, uma criança avistou-o e, intrigada e curiosa, indagou: “Por que é que o imperador está nu?”. O pai da criança, embaraçado por terem descoberto no seu filho um “tolo”, continuou fingindo que via as roupas do imperador, assim como o fizeram os outros.
Envergonhar-se de nossa ignorância é andar por aí, no nosso “reino”, espalhando opiniões sobre tecidos que nem mesmo existem, certezas de coisas sobre as quais pouco sabemos. É por este motivo que muito se utiliza a metáfora comparativa entre o modo filosófico de ver o mundo e o olhar da criança. Olhar curiosamente para as coisas e admitir espanto, sem ter vergonha de ainda não saber sobre o que está acontecendo é uma atitude genuinamente filosófica, genuinamente infantil. Incompatíveis com a falsa sabedoria.



