terça-feira, 13 de março de 2012

As roupas novas do imperador

               Admitir a própria incerteza, a própria vulnerabilidade diante de juízos, a ignorância e a dúvida são costumes pouco recorrentes. Utilizar-se de hipóteses e suposições ao invés de certezas, trabalhar com a maleabilidade de informações, parecem ser atitudes que demonstram fraqueza intelectual, moral e, até mesmo, profissional. 

Muitas profissões, aliás, descendem daquela primeira arte retórica de manipular informações conforme convém: a sofística. “Sofista” era, nos tempos da Grécia Clássica, aquela pessoa que sabia discursar de maneira persuasiva, convencendo quem fosse do que quisesse. O nome “sofista”, inclusive, significa “possuidor de conhecimento”. Até que, para desestruturar esta ideia precipitada sobre o conhecimento, ainda na Grécia Clássica, um homem chamado Sócrates resolveu abrir bem os olhos para todo aquele “conhecimento” sofístico e, com singular humildade, admitir que ele, por sua vez, só sabia que nada sabia.
Sócrates, então, deu espaço a um novo tipo de “profissional do conhecimento”. Substituiu o “possuidor” do conhecimento pelo “amante do conhecimento”, isto é, o filósofo. Antes de afirmar algo, o filósofo - aquele que quer se aproximar da verdadeira sabedoria - analisa cuidadosamente qualquer afirmação. Sem outro tipo de interesse, apenas o amor pela verdade, o filósofo tenta olhar para ela como jamais foi olhada: afastando dela todas as outras “verdades” (no plural sofístico) que convencionalmente se prostraram em sua frente.
É um pouco como a velha fábula de Andersen. Um falso tecelão apresenta-se para o imperador prometendo-lhe um tecido tão especial que apenas os sábios podem enxergar; os tolos, os incapazes intelectualmente não podem vê-lo. Encantado com a promessa de poder conhecer as pessoas “sábias” do seu reino apenas distinguindo quais são capazes de ver o tecido, o imperador pede que o tecelão faça-lhe uma roupa. Quando esta é a ele entregue, o imperador, embaraçado, enche-a de elogios. O problema, porém, é que o próprio imperador não consegue vê-la. Com vergonha de admitir que era, ele mesmo, um “tolo”, nos dias que se sucederam, o imperador, imaginando que endossasse a roupa mas, na verdade, completamente nu, passeou pelo reino observando quem era dotado da capacidade de enxergá-la. Os habitantes da cidade, também envergonhados por sua ignorância, fingiram todos poder ver as roupas novas do imperador, mesmo que, de fato, ele não vestisse nada. Até que, um dia, uma criança avistou-o e, intrigada e curiosa, indagou: “Por que é que o imperador está nu?”. O pai da criança, embaraçado por terem descoberto no seu filho um “tolo”, continuou fingindo que via as roupas do imperador, assim como o fizeram os outros.
Envergonhar-se de nossa ignorância é andar por aí, no nosso “reino”, espalhando opiniões sobre tecidos que nem mesmo existem, certezas de coisas sobre as quais pouco sabemos. É por este motivo que muito se utiliza a metáfora comparativa entre o modo filosófico de ver o mundo e o olhar da criança. Olhar curiosamente para as coisas e admitir espanto, sem ter vergonha de ainda não saber sobre o que está acontecendo é uma atitude genuinamente filosófica, genuinamente infantil. Incompatíveis com a falsa sabedoria.

sábado, 19 de novembro de 2011

Uma cópia de si


          Um professor de meia idade descobre uma cópia de si. Tertuliano Máximo Afonso (por mais autenticidade que seu nome pareça lhe dar!), vê um outro de si a perambular numa tela de TV. Alguém com suas mesmas feições, cicatrizes, com seu mesmo corte de cabelo, sua voz. O homem, que por anos a fio dedicou-se ao ensino de História, vê-se na tela como um recepcionista de hotel, como um advogado, depois como caixa de banco. Espanta-se e, arrebatado, prende-se à sina de mais olhar e olhar para dentro da telinha, para ver do que é capaz o seu sósia.
          O caso poderia ser considerado ficção, se não fosse verdade. Cômico, não fosse trágico. Neste específico episódio, porém, trata-se de O Homem Duplicado; uma história que nos conta Saramago. Seu singular poder de captar as mais legítimas inquietações e os mais íntimos desejos do homem nos propõe este inesperado roteiro. Bem desavisados poderíamos lê-lo e ri-lo. Mas, cá vemos um fenômeno a ser relevado: e não é assim que se sucede quando sentamo-nos em frente ao vídeo?
          Uma olhadela fugidia à televisão, às revistas e aos demais meios de comunicação, e saltam-nos aos olhos múltiplos casos como este. É a empatia. Um substantivo que indica uma forma de identificação emocional ou mesmo intelectual para com o outro. Bem de certo, sãos como ainda somos, não vemos nossos sósias passeando dentro da televisão, como o fazia Tertuliano Máximo Afonso. Mas quase. O que acontece é que nos identificamos com os que estão lá dentro passeando, e isto nos hipnotiza: Que coincidência!
Este fenômeno empático não é recente (Aristóteles já se referia a ele muito antes de sentarmos para ver a novela das oito), mas vem sendo utilizado numa crescente desconstrução do sujeito contemporâneo. Se existe na empatia a beleza de um ‘pôr-se no lugar do outro’ e, com isso, aprender sobre situações que não precisar-se-ia, necessariamente, viver na pele, por outro lado, o mundo midiático nos detém cada vez mais através da sua perspicácia sobre esta possibilidade. Trabalhando minuciosamente suas personagens, seus jingles, suas publicidades, nos faz ouvir na letra da música a nossa história, sofrer o mesmo mal que o pobre mocinho da novela, (não admitimos, mas, nos faz ter os mesmos desejos do vilão), e, na propaganda da pasta de dente, ver nosso sorriso. Enxergamos (sim, está lá!, não é delírio!) nossa vida na TV (com o perdão da citação direta). E, quando menos esperamos, o personagem da novela tem o mesmo corte de cabelo que o nosso (ou seria o contrário?).
             Nos identificamos e com isso nos emocionamos, criamos raízes no sofá e vivemos uma (duas, três) vida(s) por tabela. E fez-se o milagre de transformar um autêntico sentimento de identificação emocional em uma estratégia marqueteira. Não é de todo ruim. Ao menos comprova que somos seres que ainda sentem empatia. O ruim é quando Tertuliano Máximo Afonso não olha mais para o ator da TV e vê-se a si mesmo; mas quando olha para o espelho e vê (ou procura) o ator da TV.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Me conta minha história, Eliane Brum


“Me conta minha história, mãe” é o que, na verdade, todos estamos dizendo quando abrimos o berreiro ao sairmos do ventre aconchegante e respirarmos o ar denso de possibilidades deste novo e intrometido mundo que veio se prostrar no nosso caminho com um estimulante "Era uma vez..". E foi o que a contadora de história Eliane Brum desenhou com palavras, contando e encantando cada um daqueles que a ouvia e que se sentia o personagem escolhido da sua história, na terceira tarde de debates da 14ª Jornada de Literatura: o mais bonito do homem é que a sua existência permite que ele se invente. Ele não existe apenas na natureza: tem a fervescente oportunidade de criar a sua narrativa e recriá-la indefinidamente.
Somos aquilo que contamos de nós, aquilo que contam de nós, e não devemos deixar nossas páginas em branco. Mas isto não é motivo para deixar que nossas páginas nos prendam, elas devem servir para nos libertar e nos recriar a cada vez que forem contadas: crescer é ampliar as possibilidades de narrativas da vida. Mas será que ter um enredo comum é menos importante? E o que se faz das histórias não narradas?, das memórias esquecidas?, das vozes emudecidas? Será que existe alguém que não faça parte da grande e recheada história do mundo?
Nossa pequenez diante daquilo que nos é narrado a plenos pulmões pela mídia tradicional pode ter sido reprimida em tempos idos. Mas sua singeleza não se deixou esvair nas notas de rodapé dos jornais, das revistas e, menos ainda, das nossas vidas. A nova mídia, esta mesma, da tão famigerada era virtual, permite com que narremos nossa história. O estopim da era tecnológica pode estar nos ajudando a contarmo-nos. Como? A história das nossas vidas está se impondo em sentido inverso do que o antigo habitual: aquela história que parecia não tão importante está mostrando que merece, sim, estima. A periferia é, agora, o centro, devido a esta democratização das vozes narrativas. Somos todos mais centrais e centrados naquilo que diz respeito às nossas próprias histórias.
Fechar as janelas da mídia para as minúcias e pormenores da nossa vida é um ato de resistência.* Uma janela aberta para a miudeza é, ainda assim, uma janela, e é, mais que isso, uma janela aberta.


* Uma luta perdida?

ABL - A linguagem é um veículo de conteúdos



“Como funciona a magia da linguagem?” pode ser uma das traduções da inquietação proposta por Evanildo Bechara, na segunda manhã desta jornada de encantamento concedida pelos membros da Academia Brasileira de Letras. O ocupante da cadeira 33 considera a linguagem como um veículo de conteúdo e, a partir daí, desmembra a possibilidade de condução a um sentido, e não apenas a um significado, da palavra.
A sugestão de Bechara é a de que pensemos a possibilidade da linguagem primeiramente como condição e capacidade de comunicação – algo que não vai além do plano físico, da aptidão natural e universal de expressar-se. O que determina a forma desta expressão, entretanto, depende das condições contextuais às quais estamos expostos – ora, até aqui pode-se perceber uma coincidência entre a condição dos animais racionais e os ditos irracionais, pois também estes se expressam à sua maneira, conforme sua possibilidade. É só então que vem a peculiaridade deste instrumento que possibilita uma comunicação tão evoluída entre os homens: a atribuição de sentidos contextuais. As duas primeiras características que dão forma à linguagem não bastam para que nos comuniquemos: não basta podermos falar, é preciso que falemos; e, acima de tudo, que falemos de modo que os outros venham a compreender. É preciso que nosso texto, oral ou escrito, esteja ao alcance de quem nos ouve ou nos lê. Como isso é possível?, como este processo de reciprocidade de sentidos e conteúdos pode acontecer?
A estrutura que organiza palavras, frases, textos, precisa ir além da gramática para que possamos explorá-la.  A construção lógica da expressão ‘bom dia’, por exemplo, quando explicada na sua definição gramatical, significa ‘dia bom’; mas bem sabemos nós que o significado ‘dia bom’ não corresponde ao sentido ‘bom dia’ com o qual estamos acostumados a saudar as pessoas pela manhã.*  Há algo mais nestas expressões, algo que a gramática não compreende, algo que apenas nós, humanos, donos e criadores da nossa língua, temos o sortilégio de abranger. 

* Aliás, por acaso o leitor chegou a notar que o título deste texto pode ser separado entre o significado isolado das palavras gramaticais e o sentido integrado da metáfora? O que nos faz pensar metaforicamente sobre o que diz o título, ao invés de pensar no que nos mostra a figura?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O olho de vidro de Marcia Tiburi


               Em terra de cego quem tem um olho é rei: por mais que não tenha se aproveitado de tal ditado, Marcia Tiburi o metaforizou na sua breve e ritmada fala na primeira tarde de debates sob a lona do Circo da Cultura da Jornada de Literatura. Enquanto nossas atuais relações sociais e históricas se edificam em meio à pululante era digital, acostumamo-nos a estabelecer experiências estéticas com o “universo das telas”. Nosso olhar se acostumou a acontecer através do ‘olho de vidro’ da televisão, do computador, da tela de cinema. *
O que nos deve interessar – para superarmos a cegueira e reinar sobre nossas próprias experiências de mundo – é o descolamento desta hiperestetização imediata do mundo que as telas, as imagens e toda a pluralidade de ‘olhos de vidro’ podem nos oferecer. Os subterfúgios da imagem não devem estabelecer a função de capturar o sentido inteiro de nossa existência – até porque aquilo que chega aos nossos olhos depende ora de questões estéticas, ora políticas, e tantos outros ‘oras’ quantos se podem ter. A imagem, nua e crua, não nos deve ser suficiente: as palavras são o deslindar da imagem, pois esta carece da palavra e nela se transforma, já que não se compreende e não se esgota em si mesma. Os conteúdos que acessamos através dos ‘olhos de vidro’, para serem compreendidos, precisam que pensemos sobre eles; e aí já nos tomam as palavras, sem pedir licença. Aprende-se a ver imagens quando se compreende nelas algo que delas vai além: teoria, conceito e crítica. Olhar pelo ‘olho de vidro’ e ser passivo à sua inerência imagética é como boicotar a capacidade de criar abstrações e hipóteses sobre o mundo: boicotar a capacidade interpretativa, crítica e imaginativa essencial ao homem pensante.
A quantidade exacerbada de telas e olhos de vidro na era dos bits dá forma a um ambiente propício para atrapalhar nossa imaginação: olhamos para as informações e esquecemos de interpretá-las. Mas se esta hiperestetização hodierna é mesmo válida, então seria também válido dizer – e aqui vai outro ditado – que uma imagem fala mais do que mil palavras. Para tirar a prova faça um teste: experimente dizer isto sem palavras...


* O que não nos deve surpreender é que, de certa forma, a relação do homem com o mundo sempre se deu de forma semelhante, mesmo antes da era dos bits: o que eram, senão telas que direcionavam a um conteúdo específico, os murais e vitrais das igrejas medievais?, ou as sombras da caverna de Platão?

ABL - Os trezentos anos negros


“O poder da palavra aliado à razão”, foi como Domício Proença Filho – que deixou a cadeira 28 da Academia, para sentar-se numa das cadeiras do 4º Encontro da Academia Brasileira de Letras na Jornada de Literatura nesta manhã do dia 23 – definiu o ato de coragem de Joaquim Nabuco diante da luta contra a escravidão no Brasil. Um autor que foi principalmente ator, que não se esgotou nas linhas e entrelinhas de sua obra e foi, de fato, obrar. Joaquim Nabuco* foi um dos maiores oradores do Brasil, e se aproximou do drama da escravidão ainda na infância, no sul de Pernambuco. Mas ao invés de puramente descrevê-la e poetizá-la com escolhidas palavras, as utilizou a favor da campanha abolicionista, explorando-as para além dos confins brasileiros para defender seu ideal. Usou da palavra para tentar erradicar a mancha que cobriu os cerca de trezentos anos de um manto de sangue negro na história de nosso país. Anos em que este esteve comprometido com sua própria situação e que se tornaram decisivos para os rumos da sua história.
Que a escravidão era desumana, muitos tiveram a audácia de ressaltar. Poucos, porém, pensaram não somente na sua erradicação, mas também na sua abrangência. ‘O que’ fazer com a abolição é uma pergunta que vai além do ‘por que e como fazê-la’. É neste sentido que Joaquim Nabuco pensou, clarificou e definiu as circunstâncias e as instâncias da escravidão no Brasil. A integração daquele povo emudecido pela sujeição ao sistema devia ser processo corolário ao entusiasmo abolicionista, que configuraria a situação histórica em termos éticos, políticos e econômicos. Dar fim a uma condição significa dar início a outra; mas em que dimensões sociais passaria a se encaixar o escravo? A cultura brasileira fossilizou nos seus moldes a ideia de escravidão e suas respectivas consequências: estes trezentos anos negros influenciaram nosso caráter, temperamento e integridade moral e, enquanto essa obra não for superada, o abolicionismo sempre terá de ser um peso – sempre será uma ‘Tróia negra’, como chama Domício em sua obra.
O abolicionismo não foi (e ainda não é!) apenas um movimento que pretende abolir a escravatura – esse é o sentido restrito e imediato do termo. Não basta acabar com a escravidão, é preciso acabar com a obra da escravidão.
a raça dorme
e já não sonha mais
o rei de outrora
não existe
mais
e Tróia
colina sitiada
agoniza
eterna
ao som
de velhos
carnavais.”
(Dionísio Esfacelado, Domício Proença Filho)

Acabou?

* para muitos, conhecido como Quincas, o Belo.

ABL - Por que ler os clássicos?


“O azul não estava limpo
Nem tinha viço o espaço
Porque não era início de março”,
o que não significou que a abertura do 4º Encontro Nacional da Academia Brasileira de Letras na 14ª Jornada de Literatura tenha proporcionado menos “inopinadas epifanias” debaixo daquele tempo casmurro. Aliás, uso-me de citações* de Geraldo Holanda Cavalcanti, cadeira 29 da Academia, para dar abertura a estes pequenos ensaios sobre esta oportunidade singular de ouvir quem tem o que dizer. O que fica evidente, diante das figuras da Academia, é que devemos revolver aos clássicos por tempo indeterminado e sem comedimento. Geraldo começou por dizer o que os clássicos não são. Não são obras perfeitamente tediosas, as quais os professores nos obrigam a fazer análise sintática, ou os livros que os pais guardam nas estantes sem ler para dar para os filhos. Clássico não é livro antigo e fora de moda. Pelo contrário, clássico é sempre atual, universal e incessantemente inquietante em relação à mais completa gama de sentimentos de um povo. Desta feita, toda leitura de um clássico é uma releitura. Uma releitura de nós mesmos, excepcionalmente individual e plural – assim, bem conflitante mesmo! E se os argumentos apresentados não foram suficientemente convincentes, o que se há ainda a dizer não é difícil de entender.. ler os clássicos é simplesmente melhor que não ler.
 * um tanto quanto adaptadas.